NOVA YORK
Cartografias afetivas de uma cidade invisível: mapeamento sensível dos espaços habitados por corpos de/na rua

REFERÊNCIAS
IPEA; marco a. c. natalino (org.)
a população em situação de rua nos números do cadastro único (2024)
IPEA; MARCO A.C. NATALINO (ORG.)
A POPULAÇÃO EM SITUAÇÃO DE RUA NOS NÚMEROS DO CADASTRO ÚNICO (2024)
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JEAN-PAUL THIBAUD
LA COMPRÉHENSION DE L'EXPÉRIENCE SENSIBLE
In ﹏. La ville à l'épreuve des sens (Habilitation à Diriger les Recherches). Grenoble: Université Pierre Mendes, 2003, p. 71–86.
Grandes cidades, espalhadas por todo o mundo, tem apresentado um aumento da ocupação de pessoas em situação de rua, fazendo com que algumas categorias de ocupação surjam, como essa praticada pelos nômades sem teto, pessoas em situação de rua que perambulam em busca de sustento. Essa atuação informal implica uma negociação com as habituais estruturas de funcionamento dos espaços coletivos urbanos. Recentes visitas realizadas pela coordenadora da pesquisa, Ethel Pinheiro, a Copenhagen (Dinamarca), Lisboa (Portugal), Nova Iorque (EUA) e Berlim (Alemanha), nos anos 2024 e 2025, revelaram pessoas em situação de rua convivendo, de forma bastante naturalizada, com pessoas ativas socialmente e economicamente, o que coloca em jogo as dinâmicas traçadas por uma ideia cristalizada de urbanidade.
No Rio de Janeiro (RJ), o IPEA (2024) aventa que possivelmente haja algo próximo a 20.000 pessoas em situação de rua na capital. Essa quantidade de pessoas “de rua/na rua” mostra uma consonância direta com a deficiência de políticas públicas e com a pouca adesão dos planos urbanísticos a inserir essas pessoas como parte das discussões de desenvolvimento humano e justiça social.
Este segmento, chamado de fase Nova York, ocorreu entre julho a outubro de 2025 durante período pós-doutoral desenvolvido pela coordenadora na Universidade de Columbia (NY). A cidade de Nova York surgiu como um contraponto ideal à realidade carioca, e também uma base comparativa, já que é a quinta maior área metropolitana do planeta, a cidade que mais acumula pessoas em situação de rua nos EUA, além de um dos mais importantes centros financeiros mundiais. Ao contrário do RJ, as pessoas em situação de rua estão mais isoladas, espalhadas pela cidade de Manhattan (majoritariamente) de forma individualizada, e constroem comunidades de pessoas em situação de rua em zonas economicamente mais pobres, como Bushwick (Brooklyn) e Harlem (Manhattan), contribuindo para pensar profundamente sobre um mundo cada vez mais urbano e complexo, como sugere Jacqueline Klopp, supervisora desse período pós-doutoral. O mapeamento de diversas zonas das duas capitais permitiu angariar dados de extrema relevância para lutar contra a injustiça social e a deficiência do planejamento urbano em metrópoles.
Metodologia
REFERÊNCIAS
verônica martins tiengo
O NARRADOR: CONSIDERAÇÕES SOBRE A OBRA DE NIKOLAI LESKOV
Textos & contextos. Porto Alegre, v.17, n.1., 2018, p. 138–150.
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suely rolnik
cartografia sentimental: transformações contemporâneas do desejo (sulina editora, 2007)
DESENVOLVIMENTO DA PESQUISA
No Brasil as discussões sobre serviços públicos e equipamento urbanos direcionados à POP RUA chegam de forma branda, mas, fortemente comandadas por diversos movimentos sociais e grupos de trabalho, secretarias e ministérios públicos focados na busca por uma reversão do quadro até então apresentado, entre eles o Coletivo TRILHAS DE CUIDADO NAS RUAS, da Fiocruz, organizações de apoio à POP RUA como o PROJETO RUAS, a ONG SOVAMOS RJ e a Ouvidoria do TRT-1ª Região – parceiros de pesquisa desde 2024.
Nos EUA, o Center for Sustainable Urban Development (CSUD), que faz parte da Universidade de Columbia, NY, onde o pós-doutorado foi realizado, busca compreender e abordar questões sobre sustentabilidade, equidade e planejamento do ambiente urbano há dezenas de anos. O CSUD se concentra em desenvolver pesquisas e ações práticas para construir cidades saudáveis, justas, sustentáveis e habitáveis. Deste modo, com foco na criação de conhecimento colaborativo e interdisciplinar, o uso criativo de tecnologias e redes tem permitido a criação de projetos, programas e políticas impactantes entre diversos grupos de pesquisa pelo mundo, inclusive o grupo de pesquisa que sedia esta pesquisa (Laboratório Arquitetura, Subjetividade e Cultura – LASC/UFRJ.
Além do CSUD, algumas organizações importantes como a Open Hearts Initiative e a Coalition for the Homeless tem promovido o suporte institucional e social pelas ruas de NY, permitindo que a coordenadora da pesquisa participasse de diversas reuniões e ações, construindo um conjunto de dados importante para a pesquisa.
Em comparação ao RJ, a situação de rua em NY atingiu níveis críticos, com cerca de 350 mil pessoas vivendo em algum tipo de situação de rua (informações baseadas na "Coalition for the Homeless"). Isso inclui indivíduos vivendo em abrigos, indivíduos sem abrigo nas ruas e metrôs, e temporariamente alojados em casas de terceiros. Em 2025, 106.875 pessoas dormiam todas as noites em abrigos na cidade de Nova Iorque, aproximadamente 8.000 dormiam sem abrigo em espaços públicos e mais de 200.000 pessoas dormiam temporariamente em casas de terceiros. A cidade de NY foi responsável por 93% do aumento da população total desabrigada do estado. Portanto, em contraste com o número acintoso de mais de 300 mil pessoas desabrigadas no Brasil, e um total de 20.000 desabrigados no Rio de Janeiro, as políticas públicas de oferta de abrigo e de favorecimento da permanência em residências múltiplas é muito mais engajada em NY, apesar dos números absolutos serem praticamente iguais ao de um país inteiro (o Brasil).
MÉTODOS DE ABORDAGEM DESENVOLVIDOS
A pesquisa, de cunho interdisciplinar, move-se a partir de estudo de campo com utilização de fotografias, registro audiovisual e georreferenciamento de dados, além de atividades de acolhimento e de abordagem sensível que visam facilitar o processo de mapeamento com ética, respeito e adaptabilidade às exigências de sondagem em diversos locais, para criar cartografias sensíveis (Rolnik, 2007). Analisar esses estratos da cidade, por meio das ambiências consoantes aos usos desenvolvidos por pessoas em situação de rua, tem enriquecido as sondagens por espaços públicos no RJ e exigido uma metodologia bastante estratificada. Por isso, o processo metodológico se baseia em três etapas sequenciais:
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- busca direta da localização de pessoas em situação de rua, por meio de saídas a campo em horários vespertinos e noturnos, e com o auxílio de transporte público (metrô e ônibus) em NY, pelo fato da pesquisa ter ocorrido por ação solitária da pesquisadora;
- acolhimento e conversa direta com os interlocutores, com fornecimento de bebida (água mineral) e de material explicativo sobre a pesquisa, incluindo o “Termo de Consentimento Livre e Desempedido” traduzido, quando consentido pelo interlocutor;
- mapeamento dos pontos de permanência de pessoas em situação de rua, além de registros das narrativas pessoais e dados relevantes para a análise sensível das pessoas.
A aplicação das 3 etapas acima mencionadas permitiu a síntese do método “Cartografia de Cidades Invisíveis” para a cidade de Nova Iorque, com a representação final em esquemas gráficos digitalizados, realizada por meio de derivadas pela maioria dos bairros de toda a cidade de Nova Iorque, dentre seus distritos: Manhattan, Queens, The Bronx, Brooklyn e Staten Island.
A ausência de entrevistas em Nova Iorque não prejudicou a comparação de dados, pois o foco principal sempre foi avaliar os aglomerados urbanos de POP RUA em ambas as metrópoles. Os bairros pesquisados entre julho e setembro de 2025 foram: em Manhattan – East Harlem, Central Harlem, Upper West Side, West Village, Chelsea, Midtown, Lower East Side/Chinatown; no Brooklyn – Dumbo, Brooklyn Heights, Bedford-Stuyvesant e Bushwick; no Bronx – Highbridge, Morrisania, Riverdale; e em Queens – Flushing, Fresh Meadows, Astoria e Rockaway. O distrito de Staten Island não foi investigado, por compor-se majoritariamente de casas individuais em condomínios bastante organizados.
Resultados
REFERÊNCIAS
PATRICE SCHUCH; IVALDO GEHLEN
A “SITUAÇÃO DE RUA” PARA ALÉM DE DETERMINISMOS: EXPLORAÇÕES CONCEITUAIS
In ﹏. Adriana Dorneles, Juliana Obst e Marta Silva (Org.). A rua em movimento: debates acerca da população adulta em situação de rua na cidade de Porto Alegre. Belo Horizonte: Didática Editora do Brasil, 2012, p. 11–25.
Em Nova Iork, apesar da ausência de respostas das entrevistas (como mencionado), o grande número de indivíduos isolados em várias partes da cidade demonstrou que as políticas de abrigo e a ação de compartilhamento de moradias são razoavelmente eficazes. A observação primária de que as pessoas em situação de rua não estavam em condições de falar com a pesquisadora, devido a seus evidentes problemas de saúde mental, foi confirmada por dados fornecidos por órgãos oficiais, como o Departamento de Serviços para Pessoas em Situação de Rua de Nova York (DHS). Essas informações também explicam por que apenas alguns lugares de Manhattan e Brooklyn, e apenas aqueles com menor índice de desenvolvimento humano (Harlem - Manhattan e Bushwick - Brooklyn, por exemplo), concentram mais POP RUA em determinados locais próximos a áreas comerciais, onde fontes de auxílio alimentar ou trocas de pequenos itens estão facilmente disponíveis.
Nas ações realizadas pelo RJ, um adesivo (auto-descolante) com a frase “A rua não é minha casa” é entregue à POP RUA depois da entrevista, para que seja colado em locais por onde a pessoa trafega. Em NY, poucos adesivos foram entregues, principalmente em Chinatown. No dia seguinte, em um percurso feito pelo mesmo bairro, o adesivo foi encontrado colado em um poste, em frente a um estabelecimento comercial, o que oferece uma percepção relevante sobre onde exatamente a POP RUA considera que sua mensagem seja eficaz. Essa abordagem não apenas promove a visibilidade de uma cidade oculta, marginalizada pela falta de políticas públicas e planejamento urbano adequado, mas também possibilita o mapeamento das diferenças sociais entre aqueles que circulam pelas ruas e traz uma dose de questionamento por quem encontra o adesivo.

Esta etapa da pesquisa demonstrou que o crescimento da POP RUA nas grandes cidades não alterou sua aparente invisibilidade. A falta de preocupação com a geração de atividades participativas por parte da sociedade civil e dos governos é bastante específica e reforça a aparente incivilidade que a população em situação de rua representa para a sociedade, como Schuche e Gehlen (2012) discutem.
Rio de Janeiro e Nova Iorque são de fato cidades que valorizam a vida ao ar livre, as atividades coletivas e o lazer relacionado aos benefícios da natureza engendrados pelo asfalto de suas cidades. No entanto, todas essas atividades são direcionadas a corpos qualificados e economicamente ativos, que experimentam as dimensões do público e do privado, seguindo diretrizes de planejamento urbano projetadas para pessoas ideais.